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sábado, 4 de dezembro de 2010

Desejo por queda livre.

O rapaz abre os olhos e pensamentos assolam sua cabeça confusa.

- O que e isso? Nossa, que dor! Aonde eu estou? Que manchas vermelhas são essas?

Pergunta para uma pessoa que não vai fazia um bom tempo e que sempre se apresentou dizendo ser sua consciência e novamente volta-se para ele e tenta responder cada uma de suas perguntas dizendo:

- Vamos do princípio. Você está vendo o céu, está na sarjeta, são gotas de sangue escorrendo pelos seus olhos.

O rapaz fica relutando contra a dor e agora contra o desespero. Ele não entende como chegou ali e porque está assim, eis que pergunta:

- Porque eu estou assim? Quem fez isso?

Sua consciência suspira por estar farta de ouvir tais perguntas, mas responde as perguntas do rapaz.

- Você está assim porque quer estar. Quem fez isso foi a incerteza que parece agora ser a sua melhor amiga. Vocês vivem juntos. Olhe para o lado e você a verá.

Com muito custo o rapaz vira seu rosto para o lado e olha uma mulher desesperada sem saber o que fazer. Ela não diz nada, não olha para ele. Somente parece procurar uma resposta para uma pergunta e faz isso desesperadamente como se nada mais importasse. Ele percebe que não há preocupação por ele. Só pela resposta.
O rapaz volta-se novamente para o céu e para sua consciência que olha fixamente para ele esperando uma pergunta. O rapaz diz:

- Foi ela que me deixou assim?

- Foi.

- Eu permiti.

- Sim.

- O que eu faço?

- Siga meu conselho.

- Qual seu conselho?

- Não pule outra vez.

Ele de repente se lembra e o tempo parece não estar mais congelado, pois o seu amigo aparece correndo, tenta levantá-lo e reanimá-lo. Olhando fixamente para o céu e sem prestar atenção na voz se esvaindo, ele só sussurra uma coisa.

-
Eu prometo escutar dessa vez.

O seu amigo não escuta, pois o momento não o deixou se fixar nas palavras baixas e nos lábios imóveis do amigo. Dias depois ele acorda e se vê coberto pro uma colcha branca e sua mãe dormindo ao lado da cama. Do outro lado ele vê flores, cartões e balões com várias mensagens de melhoras.
O tempo para de repente e ele vê uma pessoa de preto entrar no quarto e sentar do lado dele. Logo em seguida a incerteza entra e senta ao lado da pessoa. Dessa vez calma e olhando para ele com um olhar frio e vazio. A pessoa de preto pega sua mão por um momento, larga e vai em direção a janela e a abre. Logo em seguida ele sai do quarto e a incerteza fixa seu olhar na janela. O rapaz levanta-se e debruça-se na janela. Sua mãe acorda, mas se mantém imóvel para não assustá-lo e ele cair e espera.
O rapaz vê a sua consciência ao lado dele debruçada com ele na janela e sorri. Ele sorri de volta e pergunta:

-
Você me ouviu?

Ainda sorrindo a consciência apenas sai da janela e vai embora do quarto. O rapaz fecha a janela e escuta ecoar no corredor o choro da incerteza. Dessa vez ele ouviu.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"Branco, cinza, preto.preto, cinza, Branco"

Sabe quando você se vê só? Você cria um mundo onde nada parece ser o bastante, mas que você sabe que não chega nem perto de ser ruim. Você apenas se vê só, se vê em um quadro pintado somente com tons de cinza. Nunca chegando até o preto e sempre beirando o branco absoluto. Porém, fica sempre em um meio termo fugaz. Nunca se sabe qual o tom que vai perdurar.
Vejo-me sentado em um quarto diante de uma paisagem perfeita. Nuvens, árvores, campos sem fim que beiram um por do sol sem igual. Assim mesmo, não parece ser perfeito o suficiente. Me falta alguma coisa. Como se eu visse essa imagem em uma foto em preto e branco. Buscando apenas as cores certas para deixar essa foto cada vez melhor e essas cores acabam se esvaindo. Nenhuma delas parece ser enxergada por mim.
Os sabores e as lembranças começam a me afetar de uma forma diferente. Sinto falta de certas coisas cada vez mais. Lembranças recentes e mais antigas trazendo cada vez mais saudade, desejos trazidos pela gula se mostram mais constantes. Parece que tudo gira em volta de uma insatisfação inesperada e de uma saudade incessante. Não faz sentido.
Talvez seja uma fase, talvez seja um medo. O fato é que eu não sei o que é. Acho que eu deveria apenas acender as luzes, pois a penumbra está acabando comigo. A solidão se fixa ao meu lado por eu não conseguir ver tudo como eu gostaria. As silhuetas não me satisfazem, a ausência de formas e cores me fazem falta. E desse jeito eu não consigo ver o seu retrato. Algo que deveria me tirar essa escuridão de perto de mim mascarada por um simples ponto de luz agora inexistente.
Levanto-me para acender a luz e vejo por uma fresta da minha porta fechada com um feixe de luz que ilumina a foto que seguro. Eu só consigo ver partes dela. Ou seus olhos profundos, ou seu sorriso tímido e suave ou seu cabelo. Me prendo a esse passatempo até me dar conta que eu faço isso para ver cada parte que eu gosto tanto no seu rosto de cada vez. Não tenho mais uma parte favorita, pois não vejo tudo de uma vez. Cada parte que eu vejo é minha predileta enquanto estou vendo.
Esse tipo de coisa eu não veria em um lugar iluminado, onde houvesse tons de cores os quais eu nem soubesse nomear. Me vejo em um lugar certo e a solidão é passageira. Em um quarto escuro com um feixe de luz eu me sinto só, mas não perdido. É só questão de me apegar a pequenos detalhes que tudo parece melhor no fim. Tal como nesse texto... Tal como uma escala de tons.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O acaso não anda sozinho.

É um fim de tarde beirando o crepúsculo e você se encontra na cobertura de um prédio. Um prédio americano onde o terraço não tem muita coisa além de uma porta por onde você veio e uma escada de incêndio que desce pela lateral do prédio. Edifício comum em uma dentre tantas outras ruas movimentadas da cidade.
Você se encontra ali pensando no nada. Olhando para o céu e esperando ver com clareza as estrelas que você certamente não verá enquanto o vento bate no seu rosto. O casaco cinza que você veste te protege da brisa leve e gelada trazida pela estação do outono. Você veste seu tênis mais confortável e sua calça mais barata. Na mão esquerda uma garrafa pela metade da sua bebida favorita e na mão direita a tampa da garrafa.
É um momento que você se vê confortável. Não te falta nada, apenas uma coisa. Você só se dá conta quando está debruçado segurando a sua bebida. Você está apoiando-se usando seus antebraços e deixando o corpo um pouco curvado para frente, conseguindo olhar a rua.
A movimentação na rua é constante e os sons ecoam até o 21º andar. Você enfim se dá conta de que o que falta é o som do nada. O som dos seus pensamentos e nada mais. Os olhos se fecham, você sente a brisa no rosto e nada mais parece existir. Por um mero segundo você acha a paz que você procurava e tudo é perfeito.
De repente algo fica preso na sua mão entreaberta, a qual segurava a tampa da garrafa. É um pedaço pequeno de papel rasgado trazido pelo vento. Você desdobra o papel e vê a palavra "falta" no papel e instintivamente procura pela fonte desse papel.
Não muito longe você vê uma pessoa também no topo de um outro prédio jogando pedacinhos de um papel que está a rasgar para o vento levar consigo. Essa pessoa te vê de volta ao você mostrar um dos pedacinhos de papel na mão e jogá-lo ao vento novamente. Você dá um sorriso leve e ela sorri de volta.
Acabou que você se deu conta de que você conheceu alguém que sente falta de algo assim como você... Pessoas esperando que o acaso lhes dessem uma direção e mesmo quando o acaso não parece suficiente. Uma brisa de outono faz tudo se tornar diferente e de um momento tão solitário, surgir algo tão oposto.

sábado, 30 de outubro de 2010

É como sonambulismo...

Acho que todo mundo já escutou aquela frase clichê sobre amigos, certo? Aquela que diz que os amigos são aqueles que gostam de nós mesmo sabendo dos nossos defeitos. Mas será que é isso mesmo? Bom, eu estava pensando sobre isso certa vez e fiquei especulando. Porque deixamos de falar com essas pessoas chamadas de amigos em alguns casos? Geralmente o motivo é por não aceitar um defeito.
Eu não entendo isso de você acabar de desvirtuado tão de relance. Você achar tantos defeitos (é, você sempre acaba achando) e depois de tantos você se deixar levar por um. É meio estúpido. Uma peça fazer desmoronar algo tão difícil de se construir. Esse pensamento me fez refletir de verdade. Me senti um hipócrita.
Não consigo me ver longe desse momento destrutivo e menos longe ainda de um sentimento que não me deixa voltar a construir aquilo agora aos pedaços. Mesmo sabendo como fazer parece que não tem mais sentido. Eu achei algo que eu não suporto e isso não me deixa mais suportar nem as outras coisas bobas que eu suportava. Eu não consigo entender bem isso.
Você passa tanto tempo com uma pessoa, conta muitos segredos. E um belo dia você não suporta um detalhe e se magoa. Isso forma uma avalanche que faz cada peça sair do lugar e todo o resto se perde. Um dia que apaga tantos outros. Um desentendimento que se sobrepõe diante de tantos momentos bons. Irracional demais. No entanto, comum demais.
É chato falar de algo ruim fazendo parte disso. Eu me sinto estranho estando em uma posição que não me agrada, mas me vejo estando de mãos atadas. Me sinto por um breve momento um fantoche de valores que me são tão repudiados por mim. Gostaria de mudar essa situação, mas não vejo muita escapatória. Essa é uma mudança que me assusta.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Medo do escuro.

É uma quinta-feira e são exatamente 00:04 horas. Ao menos isso é o que mostra no despertador do lado da cama de Alicia. Uma menina de 10 anos que não tira os olhos desse marcador digital procurando conforto com o passar do tempo e a cada minuto estando mais perto da luz do sol trazida pela manhã.
O medo assola seus pensamentos. É uma casa nova, grande, assustadora. A fiação tem problemas e a luz fica piscando, o encanamento range e a faz sentir calafrios e o piso faz mais barulho do que a rua movimentada durante o dia.
A pobre menina se sente assustada como nunca se sentiu. Ela olha para a rua serena e para seu relógio. Sua atenção fica dividida para os dois lados de sua cama enquanto busca um pouco de conforto diante de tanto terror. Mesmo ela tendo conversado com sua mãe e escutado que era normal sentir medo dessas coisas isso não acabou ajudando. O conforto que ela busca não é conquistado.
Ela corre para seu guarda-roupa, pega sua lanterna de fada e pula em sua cama para debaixo do seu cobertor. Faz um barulho enorme, mas por fim ela se sente mais segura. Ela pega seu diário que esconde embaixo do travesseiro e começa a escrever algo parecido com:
"Hoje é meu primeiro dia nessa casa nova. Eu acho que ela é mal assombrada. Parece que ela está me vigiando e me conhece melhor do que ninguém e sabe sempre aonde eu tento me esconder. Não sei explicar. É estranho e assustador.
Eu nunca devia ter dito para a mamãe que eu sou crescida e que não precisava de luz acesa para dormir. Eu estou morrendo de medo agora. Só quero que fique logo de manhã para que eu não sinta mais medo."
E quando a menina acaba de escrever ela espia por baixo do cobertor e são 3:49 horas. Ela se sente mais aliviada, mas ainda apreensiva e logo quando a tranquilidade parece estar se concretizando a luz de sua lanterna se acaba por falta de pilhas e ela grita e sai correndo com o susto.
No corredor escuro ela acaba batendo em uma das mesas e em uma porta até conseguir pegar o trajeto certo. Eis que de repente ela é segurada por alguém e ela solta um grito de desespero. A luz se acende e ela se dá conta de que é sua mãe que foi ver o que acontecia e acabou encontrando-a. Ela acalma Alicia e a leva para o quarto para dormir junto dela e do pai da menina.
Quando amanhece e todos acordam, vão tomar café e a mãe de Alicia diz que é normal ter medo e que muitas vezes é difícil encontrar coragem sozinhos. Porém, quando há com quem dividir esse medo e encontrar segurança, o medo se vai e você nem percebe que teve coragem de procurar essa pessoa para te ajudar e no fim das contas ela só fez a sua coragem crescer.
Alicia sorri e fica ansiosa pela noite. Ela quer ser corajosa dessa vez.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dois lados de uma moeda.

Eu aposto com você que você já se pegou pensando em destino. Um belo dia você pára e pensa que cada passo que você está dando em direção à locadora está escrito em um livro e mesmo que você não saiba qual o filme que você vai pegar o livro vai dizer qual é. Isso te assusta. Não tem como não assustar. O que você faz? Faz o que todo mundo faz. Não pensa nisso e desacredita nessa especulação.
Mas tem uma coisa que está ligada a esse destino que me intriga. Uma expressão que diz "o mundo gira". Esse é um pensamento que me deixa curioso. Ele realmente acaba vindo a tona em algum momento. Já vi pessoas que fizeram coisas ruins tomarem rumos auto destrutivos e outro que vivem a vida achando que é uma vida boa e no fim das contas eles tem uma válvula que deveria ser de escape sendo algo negativo.
Um exemplo bobo de cada um, respectivamente: Um rapaz sem respeito por quem o chama de amigo acaba sozinho e só com falsos amigos e um rapaz que acha que tem a namorada perfeita, mas no fim das contas ele tem um "tumor" e não uma namorada.
São coisas corriqueiras que você vê em toda esquina. Já aconteceu contigo e já aconteceu comigo. Mas a questão não é essa. A questão é quando o mundo gira e não parece ter girado. Já aconteceu com você? Comigo já...
Um bom tempo se passou e acontecimentos se perderam no tempo. Uns viraram lembranças boas, outros lembranças ruins e outros não viraram nada além de acontecimentos passados. Só que por acaso eu os trouxe de volta. Os resgatei. Sentimentos profundos, conversas íntimas e pensamentos confusos.
Depois eu me dei conta do motivo de eu ter feito isso. E o motivo não me veio à cabeça. Dar satisfação para alguém? Mostrar um sentimento de saudade que mude algo? Meramente dividir isso tudo com alguém?
É uma incógnita dentro da minha cabeça e da minha realidade. Eu não vejo meios de mudar de alguma maneira essas coisas que eu lembrei, mas sei que certas coisas mudaram e que "o mundo girou". Mas no fim das contas, mesmo sabendo que muitas coisas se transformaram em outras... Não sinto ou vejo tal diferença relacionada a mim. Parece que nada mudou por esse motivo. Me sinto um mero espectador.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Algo que aprendi.

Era um por do sol melancólico e enigmático. Ele sabia que o fim se aproximava e tentava manter-se consciente e não cair no sono. Suas pálpebras cansadas e seu corpo exausto. O som das folhas da árvore ao encontrarem com o vento e o mover da grama em seus pés descalços não o faziam aproveitar mais aquele momento. Ele só olhava para o rosto dela. Compenetrada nas nuvens vistas daquela colina verde e isolada.
O rapaz lutava contra o sono para não esquecer nenhum detalhe do rosto dela quando acabasse dormindo. Queria lembrar de cada segundo, pois sabia que eram os últimos. Por fim ele não aguentou e caiu dormindo nos braços dela. Ela sorriu, pois não tinha visto que o rapaz estava tão cansado. Ela colocou o rapaz em uma posição mais confortável e ficou mexendo em seus cabelos até escurecer.
Quando só se via a lua e as estrelas no céu ela voltou-se para o rapaz. Ficou olhando para ele por horas. Um sorriso suave estava posto em sua face e um olhar de saudade nítido. Era o momento de deixá-lo. Não havia outro caminho a se seguir. A macieira onde se conheceram era testemunha de que eles eram perfeitos um para o outro, mas não havia meios de ficarem juntos.
Chega a manhã e o rapaz acorda. Vê-se sozinho naquele lugar tão calmo e perfeito e só consegue sentir a solidão. Sabe que o sentimento perdurará por muito tempo, mas a perda o afeta de tal maneira que acaba sendo insuportável. Ele acha que não vai suportar e é quando cai uma maçã ao seu lado e ele olha para cima. Vê outras maçãs crescendo e sorri, somente. Pareceu até que a árvore disse pra ele que sempre surgirá alguém quando menos se esperar. O rapaz levanta e vai para casa sem sentir-se tão mal, mas com a saudade apertando seu peito.
Tempos depois ele supera. É sempre assim. Com a superação ele não vê problemas em lembra-se do que passou. Se dá conta que tudo o que ele viveu com ela foi muito bom e ele nunca se esquecerá. O que o machucou acabou não sendo o fato de perdê-la. Foi a perda em si, pois ele nunca a terá perdido enquanto guardar na memória o que eles tiveram. Porém, o sentimento de perda... Isso é sempre o machucará.