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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Um casal por acaso - Parte 1

Era uma tarde qualquer na cidade onde Julia morava. Ela estava seguindo em direção à sua casa vindo da casa de uma amiga. Geralmente ela vinha pela rua principal, mas hoje ela veio por uma rua secundária para não ter que pegar uma ladeira, pois hoje ela estava de skate.
Ela não tinha se dado conta de que o caminho era razoavelmente mais longo e acabou por ficar com sede e um tanto cansada. Sabia que ainda faltavam dois quarteirões quando calculou onde devia estar e preferiu fazer uma pausa para recuperar o seu fôlego.
Na esquina do quarteirão ela viu um café e decidiu ir até lá para tomar um refrigerante e descansar por alguns minutos. Ao chegar no café, ela viu que o único lugar vago era a última mesa do lado da janela. Ela percorreu o café todo e no trajeto bateu com o skate em uma das mesas sem querer e pediu desculpas sem nem olhar para a pessoa, pois ela ficou sem jeito. Chegou até a mesa, sentou-se e fez o pedido.
Quando a garçonete trouxe o seu refrigerante ela olhou para a mesa em que seu skate havia batido e viu que era um rapaz sentado nela. Moreno, mais ou menos 25 anos, cabelos ondulados, costeletas, magro, com tatuagem no braço esquerdo e metade do peitoral e usando uma camisa regata. Ele lia um livro de astronomia e em cima da mesa havia um chapéu coco e ao lado dele uma mochila.
Logo Julia tratou de pegar seu celular para ver se alguma de suas amigas estava online para contar essa fofoca. Acessou a internet e foi falar com Anna e contar a novidade. A conversa seguiu mais ou menos assim:

Julia diz: Aninha! Você não vai acreditar no que aconteceu!

Anna diz: O que foi, amiga?

Julia diz: Eu peguei aquele caminho mais longo para casa e fiquei cansada por causa do skate e resolvi parar para tomar um refrigerante e quando eu estava vindo até a mesa onde estou eu bati o skate na mesa de um cara lindo.

Anna diz: Nossa! E ele ficou irritado?

Julia diz: Não. Nem notou a minha existência. Além disso eu estou toda descabelada, quase sem maquiagem porque eu suei andando de skate e usando uma roupa péssima!

Anna diz: Quanto à roupa eu tenho que concordar com você. Tênis de skate, blusa larga e meia até a canela é muito coisa de menino.

Julia diz: Poxa, Anninha. Brigadão pelo conforto nessa hora de crise.

Anna diz: Hahahaha. Desculpa, amiga, mas é verdade. Mas olha só... talvez ele tenha mais coisa na cabeça do que parece. Ele pode estar pensando em outras coisas e nem ter notado ninguém mesmo.

Julia diz: É verdade... Ele parece estar lendo um livro de astronomia também. Tinham planetas na capa.

Quando Julia acaba de mandar essa mensagem dividindo olhares entre seu celular e o rapaz, ela vê que ele guarda o livro na mochila, levanta-se, põe o chapéu, põe dois fones, um em cada ouvido, e vai embora. Ele passa por ela do outro lado da janela e ela olha para ele discretamente e cobre o rosto fingindo arrumar o cabelo para que ele não reparasse que ela estava olhando para ele.
Depois desse dia ela faz esse trajeto mais longo e para no café para descansar sempre que volta da casa de Anna. Ela espera encontrar com ele alguma outra vez.

domingo, 5 de junho de 2011

Questão de vetores?

"Você é tudo que eu quero."
É só uma simples frase.
Depois de tudo que passamos o que você tem...
É não ter nada pra dizer.
Não acredito nisso.
E tudo que era de um jeito você transformou em outra coisa.
Nada mais vale agora.
O fim que eu nunca consegui ver...
Se baseia numa frase.
"Tudo que você não percebeu."

Foi assim quando eu disse que você era tudo pra mim. Eu disse de baixo pra cima. Você leu de cima pra baixo. Depois disso eu comecei a escrever coisas do jeito que você lê. Comecei com "sinto a sua falta". Pena que era tarde.

domingo, 29 de maio de 2011

O que você faz sem saber quando triste?

Um fim de tarde depois de um dia estressante Sandra vai até uma cafeteria que é na esquina da Terceira com a Sétima. Tinha sido um dia onde ela teve que despedir três pessoas que estavam com um rendimento muito abaixo dos padrões da empresa. Ela tentou argumentar com o chefe, mas não houve nada que ela pudesse fazer. Eles tinham que ser cortados.
Ela pega o seu capuchino e senta na sua mesa. Ela fica encarando a xícara por meia hora até dar o primeiro gole. Sente o café morno tocar seus lábios e descer sem levar as preocupações com ele. Ela levanta e tira uma nota de dois e uma moeda de um da bolsa e deixa sobre a mesa ao lado do café praticamente intacto.
Ela sai do bar e começa a andar para o seu apartamento que é a três quadras dali. Ela passa por um bar e depois de dar quatro passos ao passar da porta ela para, olha para a porta sem se virar e segue até a porta. Vai até o balcão e pede um copo de whisky com gelo. Senta-se em uma mesa e dá um gole. Dessa vez ela, que não costuma beber, se fixa mais em se manter sem sentir tonteira do que nos problemas que ela tinha há pouco.
Após terminar o terceiro copo ela deixa na mesa uma nota de dez, outra de cinco e uma moeda de um. Vai seguindo até o seu apartamento que é no fim do bloco. Carrega os sapatos em uma mão e a bolsa em outra. Quase cai ao tropeçar na escada, chega até a sua porta e chega finalmente em casa.
Depois de dois meses ela acaba se deparando com o mesmo dilema. Ela ter que despedir pessoas ou confrontar o chefe até conseguir que ele reconsidere. Novamente a submissão pesa mais sobre seus ombros e dessa vez quatro pessoas são despedidas pelos mesmos motivos que os anteriores.
Fim de expediente e ela segue a mesma trajetória que da ultima vez até seu apartamento. O engraçado é que ela nunca percebe que ela nessas duas vezes e tantas outras vezes em que ela se sentiu de alguma maneira triste e foi se distrair tomando um café ou fazendo qualquer outra coisa, ela pagou usando notas e deixando apenas uma moeda de um.

E se ela tivesse reparado? E se alguém perguntasse o motivo dela fazer isso? Será que não bastaria para que ela esquecesse dos problemas até o dia seguinte?

Eu também não sei.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Mais um filme, mais um texto.

Eu me peguei hoje pensando em um filme que eu via tem alguns dias. Foi um filme que eu vi quando passou no cinema, mas nunca tinha parado pra ver de verdade. No cinema eu estava acompanhado de amigos e não consegui me fixar ao filme devido a comentários e brincadeiras baseadas na imaturidade da época.

Não é costume meu assistir filmes de drama e muito menos um filme onde o ator principal é conhecido por fazer filmes de comédia. Porém, esse dia eu me arrisquei e novamente me arrisquei há alguns dias atrás.

O filme conta a história de um homem que causa um acidente e se sente culpado por matar sete pessoas. E o filme retrata a história dele buscando boas pessoas para receber os órgãos dele e as propriedades no momento em que ele morrer. É um filme pesado e que em vários momentos o diretor tenta fazer o espectador se emocionar.

O que me fez pensar é o fato do principal achar que o meio de se redimir é se matar e doar tudo o que tem para quem merece e quem possibilita essa doação é seu melhor amigo. O amigo em momento nenhum parece concordar com essa idéia, mas ele havia prometido e ia cumprir apesar de qualquer coisa.

Será que se eu acabasse na situação do personagem principal eu ia fazer isso que ele fez? Ao me perguntar isso eu não soube responder. Não sei se eu carregando tamanha culpa conseguiria me imaginar vivendo de qualquer maneira mesmo que tendo partes de mim sendo "carregada" por outra pessoa. Eu não sei se nem isso eu ia conseguir achar que eu mereço.

E tem o melhor amigo que cumpre a promessa de dar esses "presentes" pra cada uma das pessoas selecionadas. Não creio que eu tenha um amigo que consiga cumprir tal promessa porque nenhum amigo meu ia conseguir fazer parte de um plano suicida. E se conseguisse, creio que ele ia chorar por muitas noites até conseguir lidar com isso. Por fim seria injusto pedir tal coisa a qualquer amigo.

Por fim eu penso... Será que é preciso uma morte motivar uma pessoa a valorizar a vida? É tão necessária que haja uma força contrária na vida de alguém para que surja uma visão de valor? Eu não sei responder nenhuma dessas perguntas. E isso me dá medo.

domingo, 1 de maio de 2011

Contradição que perdemos com a idade.

Durante um certo tempo eu fiquei sem escrever alguma coisa. Eu queria saber se alguma idéia iria se manter intacta diante de algum tempo e calhou de acontecer. Eu até hoje procuro uma resposta pra uma pergunta simples, uma resposta que eu talvez tenha conseguido, mas que nunca teve aparência de resposta.

A pergunta que eu venho feito para mim mesmo é simples. É aquela velha história de insultos e egoísmo andando juntos. Você deve conhecer... é aquela situação onde o seu/a sua amigo/a está chateado com alguma coisa e fala mal de tal coisa. Fala tudo o que tem que falar sem nenhuma pena e compartilha a dor com você e você escuta e dá o apoio que ela precisa. Até aí é só a parte dos insultos. Nenhum problema até aí. Começa a ser um problema quando você concorda insultando aquilo que acabou de ser insultado.

Não ficou claro, certo? Vou exemplificar: Meu amigo chega para mim e conta que a sua prancha de surf quebrou e que era um lixo, que só quebrava galho e que odiava aquele pedaço de isopor. Você sendo amigo concorda dizendo algo do tipo: "realmente, aquela porcaria não vai fazer falta." e o problema começa porque você insultou o que ele acabara de insultar, mas não pode. Só esse meu amigo que pode insultar porque ele que era o dono da prancha. Tem nexo nisso? Eu não vejo.

Tudo bem que esse tipo de coisa geralmente está atribuído a um objeto ou a uma pessoa que tem um nível de importância para quem está insultando, mas já que é importante assim, por que a pessoa insulta e só ela pode insultar? Pessoas me disseram que é raiva do momento, mas se você diz algo que é verdade está tudo bem e se alguém concorda com você e continua dizendo a verdade não está mais? Que coisa idiota isso. Ou você gosta ou não gosta, ou fala bem ou mal. Meio termo existe, mas gostar e falar mal é ilógico. Se você tem raiva, resolva. Insultos vagos agarrados em um egoísmo ilógico faz você parecer um/a idiota. Ou você gosta de parecer ter 12 anos?

sábado, 2 de abril de 2011

Dia de princípios e chuva.

Hoje era um dia chuvoso e eu estava sentado nos degraus de uma loja ao lado de um bar. Eu tomava minha bebida e de baixo de uma marquise esperava passar a chuva para seguir meu caminho. Eram quase duas da manhã e havia poucas pessoas no bar. Talvez duas ou três. Não entendi bem o motivo do funcionamento tão prolongado do bar, mas nem tive tempo de questionar isso na minha cabeça.

Eu vejo um homem andando do outro lado da rua até que ele para de frente para a faixa de pedestres e olha para o poste onde está o semáforo do outro lado da rua. Ele fixa seu olhar no painel em que mostra quando o pedestre pode ou não atravessar. Não há carros trafegando, a chuva o está molhando, mas mesmo assim ele fica parado e só se move quando o semáforo lhe dá o sinal de "siga".

Não se passa muito tempo e eu procuro dentro do meu bolso meu maço de cigarros e só encontro meu isqueiro. Vou até o bar e compro dois cigarros. Voltando para onde estava sentado um rapaz me pede para acender seu cigarro, eu lhe faço o favor e ele se dirige para o ponto de ônibus próximo de onde me sentava. Fico olhando para o rapaz se dirigindo para o ponto de ônibus para se proteger da chuva e ele dá uma tragada, olha um adesivo colado no vidro e joga fora seu cigarro. Ele tinha visto um aviso de que era proibido fumar. Obviamente foi um adesivo colado por algum motivo trivial, mas o rapaz não o leva menos a sério por conta disso. Curioso.

Eu dou uma risada sutil e esbanjo um sorriso de leve, apago meu cigarro que está quase terminando, boto a garrafa de volta ao balcão e sigo meu caminho. Penso no motivo deles seguirem as regras com tanta rigidez. Me pergunto por qual motivo eu não sou assim. Não acho nenhuma resposta. Acendo meu segundo cigarro e torço para não ter um sinal de proibido fumar quando olhar para o painel de pedestres quando for atravessar a rua. Eu não saberia viver como um deles, menos ainda como os dois.

sábado, 26 de março de 2011

O diário de uma menina qualquer.

Hoje acordei assustada e aflita. Novamente tive o mesmo sonho que venho tendo durante as noites em que eu consigo dormir. Parece que mesmo dormindo o tempo se passa e é desgastante como se eu estivesse acordada. Por conta disso eu não consigo me sentir completamente saudável. Eu vejo meus dias passando cada vez mais devagar e me vejo encarando meu reflexo diante do espelho tentando saber de onde vem essa maquiagem borrada.

O sonho sempre tem o mesmo começo. Sou eu de vestido branco subindo a encosta de o que parece ser uma montanha. É tudo cinza, o céu é nublado, o chão com pequenas pedras pretas que parecem sedimentos das grandes rochas negras que vão formando a montanha. Eu começo a subir a montanha e tudo parece bem, eu sinto que tenho um propósito. Só perco essa segurança quando vejo meu vestido começando a ficar sujo por tocar o chão. Eu paro por um segundo, abaixo, pego o vestido e vejo que não há como limpar.

Após levantar minha cabeça e olhar para frente, o sonho geralmente muda. Certa vez sonhei que só ficava encarando uma nuvem que não acompanhava as outras com o vento e ia afundando nas pequenas pedras que estavam sob meus pés. Não me dava conta de afundar. Somente quando a escuridão cobria meus olhos eu sabia onde estava e acordava assustada.

Outra vez eu acabara de olhar o vestido e antes de levantar meu rosto para ver a direção para onde seguiria começava a andar olhando os meus pés e via que as pedras no chão começavam a não serem foscas. Parava de frente para uma enorme rocha, usava a manga do vestido para limpar e polir a superfície da rocha e ficava vendo meu reflexo. Era um reflexo que expressava o que eu não sentia. Eu via lágrimas molhando meu vestido e o reflexo me mostrava sorrindo. Quando limpei meu rosto e sorri, o meu reflexo chorou. De repente meu reflexo começou a afundar no chão e eu me vi flutuando. Só que o céu não estava mais nublado. O céu havia se tornado o chão e eu estava caindo. Acordo me vendo de bruços no chão encarando uma boneca que está debaixo da minha cama.

O ultimo sonho que tive foi um em que eu acabara de pegar o vestido, levantava e olhava para frente. Quando ia dar o primeiro passo, meu vestido ficava preso em uma pedra e eu apenas movia a pedra e continuava seguindo. Eu via as nuvens passando e o céu nublado deixando mais evidente a noite e o dia passando. O tempo pareceu durar semanas me baseando pelo céu, mas parece que eu dei apenas cerca de vinte passos. Chego na beirada de um penhasco e chuto algumas pedras lá para baixo. Quando fecho meus olhos e decido abri-los novamente para pular ou voltar, meu despertador toca e eu acordo suada e ofegante. Só que dessa vez era diferente. Não senti medo.

Assim tem sido as noites que durmo. As que fico acordada eu sempre acabo me ocupando com um bom livro, música, televisão ou alguma comida que me faça esquecer o sono. Não entendo o que me impede de ter uma noite plena e feliz. Não sei o motivo de sonhar todas as noites e sempre lembrar, acho que isso não é muito normal.

Depois de hoje ter sonhado com aquele penhasco e não sentir medo, mal vejo a hora de poder sair do trabalho, chegar em casa e deitar na minha cama. Não sinto mais a maquiagem nos meus olhos escorrer pelo meu rosto por conta de lágrimas. Não há mais receio de haver algum problema. Quero só saber se aquele é o fim desse capítulo da minha vida. Sei que não é o fim da minha história.